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2015 e o binário “0 – 1” vem com tudo

2015 começou quente. Não só nas temperaturas deste verão no hemisfério sul, Brasil em particular.

O massacre aos jornalistas do Charlie Hebdo, no dia 7 de janeiro, gerou uma repercussão mundial que ninguém poderia imaginar.

Independente do movimento Je Suis Charlie, que bombou nas redes sociais e nos cartazes dos eventos de protestos ou de obsequioso silêncio em respeito aos mortos dessa barbárie, ao momento em que essa postagem vai ao ar, o semanário satírico com circulação de 50.000 exemplares salta para inimaginados 3.000.000.

A campanha espontânea de angariação de fundos para recuperar as instalações do Charlie já geraram assinaturas e doações emblemáticas de pessoas e empresas que vão de Arnold Schwarzenneger e Google a Michelle Bachelet e ONU. Todos engajados no repúdio ao ato. Até Tim Cook, CEO da Apple, fez sua loja de aplicativos aprovar em 10 minutos o App Je Suis Charlie, para download gratuito.

Ponto para as redes sociais! O Je Suis Charlie foi o Trending Topic mais importante de todos os tempos no Twitter, O assunto mais comentado no Facebook e WhatsApp. Mostrou o poder das redes sociais, neste quente 2015.

Mas a história sempre tem dois lados. Dias depois, quando do desfecho da caça aos assassinos que gerou mais mortes, na sexta, 9, começaram a surgir informações -depois confirmadas- que Hackers ligados ao Estado Islâmico estariam por trás de ataques massivos aos sites e perfis em redes sociais de agências governamentais americanas.

Volta à baila com toda força, nesse 2015, o binarismo da era digital, o 0 ou 1, o liberdade e privacidade x controle e segurança.

Mais do que chegar a um modelo convergente, onde a essência de cada um dos lados seja preservado, corremos o risco de irmos para modelos onde não tenhamos nem liberdade, nem privacidade, nem controle , nem segurança.

Está chegando a hora da verdade

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Certificado Digital

Renato Felix da Silva, empresário e ouvinte da CBN Curitiba  está descontente com a qualidade, o custo e a burocracia para usar certificados digitais em transações pela internet. Diz ele, em essência:

O certificado digital, esse instrumento que deveria garantir e facilitar a emissão de informações eletrônicas, reduzir o custo principalmente ao pequeno empresário, na verdade se transformou em mais uma atividade  “comercial”, pois ao invés de criar uma identidade eletrônica que certificaria a validade da informação (fiscal, previdenciária, contábil, etc…) criaram uma quantidade de certificados que oneram as empresas tanto no custo quanto no uso, pois os diversos órgãos (RF, Previdência, BC, Etc…) exigem um tipo de certificado para diferentes informações, ou seja o instrumento que deveria servir como garantia das operações eletrônicas, na verdade esta sendo utilizado para estabelecer uma forma de cartório digital.

Diz mais o Renato:

Estou formalizando uma pequena empresa e por falta de orientação e de conhecimento comprei certificado A3 porque segundo o “entendimento” dos desenvolvedores de sistema esse certificado atenderia minhas necessidades sem nenhum tipo de restrição, porém todos os sistemas implicavam em custo inicial elevado para uma empresa que terá pouca emissão de NF no inicio da atividade.

Posteriormente me associei a ACP para ter acesso ao sistema de emissão de NFe que esta adequado a minha necessidade inicial e descobri que precisava do certificado A1 mesmo tendo o A3, para completar o obra liguei no banco para obter informações sobre fechamento de cambio e descobri que o banco pede o e-CPF.

Pergunto não deveria ser criada uma identidade digital única para empresa, e a mesma ser utilizada por todos os órgãos públicos e privados (municipais, estaduais, federais) para obtenção de certidões, ou procedimentos de qualquer natureza.

Meu comentário:

Concordo com o Renato que a coisa é complicada, difícil mesmo de entender. Para ter um ou mais certificados, custa dinheiro e, para muitas transações, sua é compulsória.

O Brasil é, ainda por cima, um país nascido de tradições cartoriais. Antes mesmo de ser descoberto por Pedro Álvares Cabral, Espanha e Portugal fizeram o famoso Tratado de Tordesilhas, onde as terras “do Meridiano para a direita” seriam portuguesas e as “do Meridiano para a esquerda” seriam espanholas. O rei português, tempos depois, criou as tais Capitanias Hereditárias, dividindo as terras de Santa Cruz em paralelos horizontais, como se fatia um pão, e as outorgou por favores devidos.

Herdamos um sistema de papéis e carimbos que não encontra paralelo no mundo, nem mesmo na ex-matriz lusitana. Por mais que tenhamos tentado, inclusive com a criação de um inusitado Ministério da Desburocratização, nada melhorou. Ao contrário. O então ministro Hélio Beltrão proibiu a exigência de autenticação de cópias e de reconhecimento de firmas. Isso foi na década de 1980, e ainda hoje (2014), sigo tendo de entrar em fila e pagar a uma pessoa desconhecida (funcionário/a do Cartório) para me dizer que eu sou eu mesmo (reconhecendo minha assinatura).

Natural, pois, que todo esse conceito de usar tecnologia para facilitar a comunicação entre empresas, dessas com fisco, bancos, previdência e vice-versa, seja lastreada em nossa herança cultural de mais de meio milênio.

Assim, embora importantes, os processos relacionados pelo Renato que requerem certificação digital são reflexo de tudo isso.  Além do mais, carecem de uma padronização, para permitir a existência de um certificado único, não só por conta da diversidade dos processos e órgãos envolvidos, como talvez a tecnologia ainda não está totalmente madura para ser universal e de uso corrente.

E num mundo globalizado, isso não se resolve apenas com legislações e regras nacionais. Há que se caminhar para padrões mundiais.

É possível?  Claro que sim, mas isso demanda tempo. Por enquanto, o jeito é conviver com essa confusão toda. Reclamar quando der, buscar dar contribuições para que os processos melhorem.

E é exatamente aí, na mudança e melhoria dos processos, que estão as maiores resistências. Aqui, nos Estados Unidos, na China, no Cazaquistão, onde quer que seja.

Os certificados digitais foram concebidos como forma de evitar fraudes, bem como identificar univocamente pessoas ou empresas em transações com as bases de dados públicas e privadas, mas que requerem alto grau de segurança e precisão. Ao criptografar as informações enviadas, de modo único para cada certificado emitido, a segurança seria maior, e as possibilidades de fraude, menores.

Talvez o que falte, no momento atual, é maior divulgação e orientação às empresas e aos indivíduos que precisam estar envolvidos com transações que requeiram certificação digital. Tenho certeza que a ACP (Associação Comercial do Paraná) pode ajudar.

Leis, regulamentos, palestras e cursos são importantes, mas não bastam. É preciso saber vender e embrulhar o peixe.

Tecnologia e as promessas de campanha

Ainda falta chegar a Copa do Mundo, mas os atores do mundo político já se preparam para costurar alianças, ganhar tempo de televisão, estruturar propostas baseadas nas expectativas da população.

Segurança, Saúde, Educação, Infraestrutura, Meio-ambiente devem ser objeto de 11 entre 10 temas abordados no horário eleitoral.

E a tecnologia, que hoje é fundamental para cada uma dessas áreas?

Veremos discussões sobre inclusão digital, banda-larga gratuita, computadores e tablets nas escolas…

As redes sociais vão ser mais centrais nas estratégias de campanha, e por elas surgirão discussões interessantes e também muita baixaria.

Mas e aí, teremos propostas que sejam viáveis de implantar e que aproveitem ao máximo da tecnologia existentes para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e contribuintes? Como essa tecnologia pode ajudar na redução das desigualdades sociais, sem agredir o meio-ambiente?

Segurança X Privacidade; melhoria da qualidade na educação e na saúde; segurança pública e individual; a melhora rápida do Brasil nos diversos rankings globais que nos colocam, via de regra, em posições pouco invejáveis.

E como a tecnologia pode apoiar aumentos de produtividade em cada setor da economia, em cada região de nosso país? Essa questão é essencial para que possamos crescer a renda per-capita real sem pressões inflacionárias.

Não estou a querer pautar o debate eleitoral, até porque a tecnologia, em si, não é capaz de proporcionar essas melhorias que ansiamos, independente de posições partidárias. Mas a ferramenta é poderosa.

Se avaliarmos o desempenho das economias que mais cresceram no mundo nas últimas 4 décadas, veremos que todas elas usaram a tecnologia digital como aliada.

Pode até ser que esse debate sobre tecnologia não seja prioritário. E nem deve ser mesmo. Mas não há como imaginar que, por exemplo, os serviços públicos possam melhorar proporcionalmente ao crescimento do número de funcionários. Há que se modernizar a máquina, melhorar e simplificar processos, diminuir a burocracia.

Como existem infinitas possibilidades de usar a tecnologia para podermos crescer mais e melhor, não custa trazer esse tema à baila.

É bom lembrar aos candidatos que a maioria dos 150 milhões de eleitores habilitados a votar terão acesso à informação por conta da tecnologia. Tentar o discurso fácil para ganhar uma eleição pode não ser o suficiente. 

Coréia do Sul quer monitorar uso de smartphones em escolas

A Coréia do Sul é um dos países mais conectados do mundo, onde a internet ultra-rápida é baratinha e a grande maioria dos jovens e não tão jovens usam smartphones durante horas por dia.

O sistema educacional da Coréia também é referência. E quando esses alunos conectados estão na sala de aula, o que acontece?

As escolas por lá estão fazendo experiências com um aplicativo que permite aos professores restringir ou desabilitar os smartphones de seus alunos.

Esse novo tipo de controle é visto como uma forma de reduzir as distrações em sala de aula, que já afeta o desempenho dos estudantes. Por enquanto, o aplicativo, chamado iSmartKeeper, está em uso experimental em pouco mais de uma dezena de escolas na região metropolitana de Seul.

O App permite aos professores o controle do uso dos aplicativos nos aparelhos dos alunos. Os professores optam pelo tipo de bloqueio que desejam fazer: podem ser bloqueados todos os telefones na escola, ou dar permissões seletivas, como só chamadas de emergência, ou também chamadas  de telefone, chamadas e SMS, ou ainda desligar aplicativos específicos.

Claro que o bloqueio seletivo de mensagens e aplicativos de redes sociais estão no topo das prioridades, assim como a liberação de aplicativos educacionais relacionados à grade curricular. O iSmartKeeper usa dados de localização para encerrar o controle quando os alunos estão fora do ambiente da escola.

Esse projeto tem apoio e incentivo das autoridades educacionais da Coréia, onde centenas de escolas manifestaram a intenção de integrá-lo, e 30.000 estudantes já estão registrados no sistema.

Mas a coisa não é tão Big Brother assim. Para que as escolas possam usar o iSmartKeeper, antes de mais nada é preciso a autorização dos pais. O aplicativo também dá acesso aos pais que querem restringir o uso do smartphone dos filhos em casa.

O aplicativo, por enquanto, está disponível para dispositivos Android , mas a versão iOS chega em abril.

Mais um avanço do controle sobre a  internet, embora por lá a coisa seja implementada de forma democrática. Será que a moda pega? Como nossos estudantes conectados reagiriam a algo parecido por aqui?

Vai viajar? Cuidado com seus planos!

Que seu celular pode estar grampeado por agências de inteligência e que suas conversas pelas redes sociais também, você já sabia, ainda mais depois das revelações do ex-NSA Edward Snowden, hoje asilado na Rússia.

Slide de apresentação interna da NSA com tópicos de monitoramento em massa.

Slide de apresentação interna da NSA com tópicos de monitoramento em massa.

A figura ao lado mostra um slide de uma apresentação da NSA sobre os tópicos que estavam sendo monitorados.

Mas nesta segunda, 27, o jornal New York Times revela que a coisa é mais abrangente do que podemos imaginar, e pode até causar problemas em sua próxima viagem. Como?

Você vem planejando com seus amigos aquela viagem de férias, mesmo com o dólar caro. Economizou uma grana, avaliou alternativas, buscou melhores preços e itinerários através de sites de viagem. E fez esse roteiro via Google Maps. Claro que você também usou seu smartphone e seu tablet para chats com os amigos e também pegou dicas com outras pessoas, conhecidas ou não, que já estiveram nesses lugares. É mais ou menos assim?

Pois saiba que a NSA e sua contraparte britânica armazenam tudo isso também nos seus supercomputadores. Aproveitando que os apps e os sites mais usados armazenam muitos de seus dados pessoais, os espiões verificam possíveis conexões suas que estejam enquadradas no perfil de um terrorista, ou até mesmo passando suas navegações nos algoritmos de identificação de suspeitos, e, sem querer, você pode ficar na mira.

Mas não é só isso. Enquanto você planeja a viagem, seus filhos ficam entretidos com os Angry Birds, em qualquer de seus apps famosos mundo afora. Até ali os dados de uso estão sendo monitorados.

Como reporta o Times, “a cada nova geração de tecnologia de telefonia celular, mais e mais dados pessoais são despejados através das redes onde os espiões podem capturá-los. 

Dentre essas ferramentas de inteligência estão os aplicativos com ‘vazamentos’ que abrem tudo, desde códigos de identificação dos usuários de smartphones até os lugares onde eles estiveram naquele dia.”

Um leitor da Califórnia define bem o que acontece. Diz ele: “Os smartphones de hoje nada mais são do que dispositivos de rastreamento bem embalados que o usuário com orgulho e ingenuamente exibe por onde passa“.

Big Brother de Orwell está aqui, só que …..

1984orwellEm 2013, quando o assunto foi privacidade x segurança, nada superou os vazamentos do Edward Snowden sobre a NSA americana e a série de manifestações iradas de líderes mundiais por terem suas comunicações monitoradas indevidamente.

Ao virarmos 2014, sobram evidências da colaboração das agências de inteligência mundo afora, mesmo quando, em tese, existam interesses em conflito. Nada que não saibamos ao assistir a cinquentenária franquia de James Bond.

Nos conformamos, também, com o que sabem sobre nós o Facebook, o Google, a Apple, a Microsoft e outras menores, tudo trocado pela conveniência dos serviços oferecidos.

Em 2013, soubemos que  com uns 1.000 dólares, um pouco de conhecimento digital, algum talento e disposição para furar bloqueios de senhas, firewalls e redes seguras, bastam vacilos de alguns dos bilhões de conectados para fazer estragos em suas contas bancárias e reputações.

Com câmeras de monitoramento onipresentes, mais todos os dispositivos digitais capazes de gravar áudio e vídeo, ficar incógnito beira o impossível.

Em 2014 pouca coisa muda, talvez com algumas legislações novas e acordos internacionais de longa gestação.

Enquanto escrevo este post, leio que o New York Times desta quinta, pede, em editorial, clemência para Snowden, para que ele possa voltar aos Estados Unidos sem as acusações de deserção e alta traição. A conferir…

Enquanto isso, as agências de inteligência seguirão bisbilhotando, as redes sociais saberão cada vez mais sobre nós, os hackers crescerão em número e sofisticação, e a indústria da segurança digital para o indivíduo prosperará como nunca.

Cabe a cada um de nós calibrar, dentro do possível, seu próprio nível de exposição. Por exemplo, não fazendo postagens de fotos e vídeos pessoais, cuidando das senhas e mantendo os programas de proteção em cada dispositivo digital sempre atualizados.

Cancele contas inativas de redes sociais, de email, de cadastro em lojas virtuais não mais usadas. Leia e reveja, de quando em vez, seus contratos de uso com cada um dos serviços e aplicativos que você possui. As políticas de privacidade e os termos de uso são alterados unilateralmente e você pode estar dando cobertura legal para que usem seus dados além do que você imagina.

E siga com sua vida digital normalmente, cuidando sempre do que resta de sua privacidade.

Cuidados com os Selfies!

Esta terça, 10 de dezembro, foi reservada para a romaria de chefes de estado e de governo que renderam homenagens a Nelson Mandela, certamente um dos personagens mais importantes da história da humanidade nos últimos 100 anos.

Com chuva e tudo, lá estavam a nossa presidente Dilma Rousseff, junto com 4 ex-presidentes brasileiros, Raúl Castro de Cuba, os primeiros-ministros David Cameron, do Reino Unido e da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, dentre tantos outros.

SelfieCameronThoring-Schmidt-ObamaMas, ao lado dos ritos solenes e dos discursos de vários desses líderes, chamou a atenção do mundo o inesperado aperto de mãos entre Obama e o presidente de Cuba, Raúl Castro e os selfies alegremente sacados pela exuberante dinamarquesa Thorning-Schmidt, com David Cameron de um lado, e Barack Obama, de outro, com rostos próximos o suficiente para poder caber na tela do smartphone dela, sob os olhares fulminantes da primeira-dama Michelle Obama.

Selfie é o nome corrente do auto-retrato digital, que cada um pode tirar esticando o braço com o smartphone na mão, câmera apontada para seu próprio rosto e com algum fundo especial, como a Torre Eiffel, uma bela praia ou até mesmo a ocasião de um fugaz abraço em um ídolo esportivo ou musical. Selfie deriva de self-portrait, ou auto-retrato.

Mas o risco de ter um selfie involuntariamente viralizado na rede é enorme, e muita gente se arrepende de ter postado algo no Facebook, por exemplo.

Agora, quando o ato de fazer um selfie com personagens desse gabarito, em pleno funeral de Mandela é capturado por algum fotógrafo, profissional ou amador, como foi o caso, a repercussão é imediata, não só pelas redes sociais. As mídias de massa imediatamente divulgam o fato, e críticas e ironias crescem exponencialmente.

Sem entrar no mérito dos motivadores dessa sequência de selfies, ou se a ocasião era adequada, eles servem de exemplo para mostrar a necessidade de colocar algum freio no impulso que cada um de nós pode ter de registrar tudo com as câmeras do celular.

Ou será essa uma nova e irreversível tendência, de registrar tudo e compartilhar com o mundo?

Marco civil da internet: pega ou não pega?

MarcoCivilA votação no Congresso sobre o projeto de lei 21626/11 tranca a pauta na Câmara dos Deputados por conta do pedido de urgência constitucional feito pelo Poder Executivo. É o chamado Marco Civil da Internet e aborda questões fundamentais, especialmente os direitos e obrigações de nós, usuários.

O tema da garantia de inviolabilidade de dados aos brasileiros é importantíssimo, e daria enorme segurança aos 100 milhões de brasileiros conectados. Será viável?

O que vamos ver é uma luta de princípios versus fatos.

A iniciativa do Marco Civil é importante, e o debate sobre o assunto vem de 2009. De lá para cá, muitas coisas aconteceram, inclusive os famosos grampos revelados ao mundo por Edward Snowden, ex-prestador de serviços para a NSA americana e hoje exilado na Rússia e os documentos secretos de governos e empresas vasados por Julian Assange, do Wikileaks, hoje na embaixada do Equador em Londres. Eles são provas vivas de como é fácil burlar sigilos.

Assim, a garantia de inviolabilidade de dados aos brasileiros -algo importantíssimo-, não se resolve apenas com uma lei nacional.

É louvável, também, o princípio da neutralidade da rede, que visa eliminar privilégios de acesso ao tráfego de dados por conteúdo, origem, destino ou serviço. Na prática, isso é algo difícil de implementar, não só por conta dos interesses em jogo, mas principalmente pela realidade de nossa infraestrutura, bastante congestionada.

A exigência de que as bases de dados dos usuários da internet fiquem residindo no Brasil é algo que dificilmente pega. Ou, se pegar, vai ser só para a torcida. Na prática, em uma rede global, a localização física de dados é algo dinâmico e jamais vai ser um espelho da localização ou da nacionalidade dos usuários. Ou seja, meus dados, seus dados, não estarão necessariamente armazenados no Brasil, não só porque eu ou você não estaremos com um IP brasileiro todo o tempo, mas porque acessos, mensagens, destinatários de dados podem conter origens ou destinos em outros países, e esses dados acabam ficando alhures.

O marco civil será votado e, com algumas modificações, acaba aprovado e sancionado, mas sua aplicabilidade será testada com grandes chances de virar letra morta, na maioria dos seus artigos.

É importante? Claro que sim, só não é exatamente a solução para todos os males da falta de regulação.

Como rede mundial, a internet só terá um marco civil eficaz quando ele for aprovado por organismos internacionais. E, sob essa ótica, os vazamentos recentes, do WikiLeaks a Edward Snowden e a reação indignada de líderes mundiais atingidos podem ter sido o ponto de partida para definição das regras globais para a internet. O marco civil brasileiro possui muitos pontos que podem servir de base para compor um modelo global.

Ou, como disse hoje um amigo meu, cidadão norte-americano, com décadas de estrada no mundo da tecnologia:

“O armazenamento local poderia ser bom para permitir criptografia segura entre pontos. […] Se um número considerável de países [relevantes] exigisse armazenamento local, seria muito difícil para os Estados Unidos impedir. No mínimo, seria uma boa ferramenta de negociação”

Disconnect quer garantir sua privacidade de sua navegação na internet

Você tem idéia da quantidade de informação que você manda a terceiros cada vez que você navega na internet? Não? Pois eu também não, até há pouco, quando testei o Disconnect.

Eu soube do Disconnect através do site TechCrunch. É uma extensão para o Chrome e para o Firefox que mostra, em tempo real, quem está rastreando você e quão seguro você está.

Tudo começou como um projeto paralelo do então funcionário do Google, Brian Kennish, lá em 2010 que visava impedir o rastreamento por anunciantes durante sessões do Facebook.

Passou o tempo, e o Disconnect virou o projeto principal do Brian, captou recursos para funcionar com vários browsers e sites e também para contratar profissionais. Como lastro a esse time, dois craques vieram do Google (que usa e abusa de anúncios para saber o que fazemos) e um da NSA, aquela agência do Edward Snowden que bisbilhota a vida de meio mundo e do outro meio também.

Disconnect já é usados por mais de 1 milhão de internautas. Agora, temos também o Disconnect Search, outra extensão que permite que você não seja identificado nem deixe rastros quando estiver fazendo buscas no Google, no Bing, no Yahoo e em outros menos cotados.

E o Disconnect Kids, um App para iOS dirigido a crianças que previne rastreamento da navegação e também ensina aos pequenos como cuidar de sua segurança digital.

O Disconnect já teve registrados vários pedidos de patente para proteção de seus algorítmos.

E o Disconnect pode alterar as regras do jogo no mundo digital. Simplesmente ele colide frontalmente com os modelos de negócios do Google, do Facebook e de outros mais. Assim, a corrida pelas patentes será acompanhada de uma avalanche de ações na justiça para impedir que o Disconnect desconecte nossas identidades e nossos hábitos dos motores de busca.

Patrick Jackson, o ex-NSA, agora é Diretor de Tecnologia da Disconnect. Ele diz como estamos vulneráveis: “Mesmo que você não faça login com nenhuma de suas contas, os motores de busca e muitos sites salvam suas navegações e as associam ao seu endereço IP, o que permite uma identificação única de seu computador”. Palavra de quem é do ramo!

A turma do Disconnect garante que não armazena nossos dados nem permite bisbilhotagens. Será?

Solidão e privacidade

O poeta e compositor Antônio Maria, autor de muitas músicas de fossa, definia que “só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Isso nos anos 1960, quando o telefone era peça rara nos domicílios de cidades grandes, o rádio e o jornal os grandes veículos de comunicação e a TV engatinhava.

Nos tempos de Antônio Maria, nada internet, smartphone, rede social. Carta, só via correio, sem essa de email; mensagem instantânea era telegrama, que dependia de coleta e entrega via portador.

Embora, nos dias que correm, aumente rapidamente o número de domicílios com um só morador, a maioria dessas pessoas não sofre de solidão e está conectada digitalmente a outras pessoas. Sua vizinhança é o mundo, não mais o prédio, a quadra, o bairro.

É claro que existe solidão para muitos dos mais de 1 bilhão de pessoas que estão no Facebook. E essas pessoas podem ter sua vida contada e recontada através do Twitter e do YouTube, queiram ou não.

A vantagem da solidão, pregada por Antonio Maria, deixa de existir, ou, ao menos, de ser tão absoluta, como ele imaginava. Basta perguntar a Scartlett Johannson. que se autofotografou nua com seu smartphone, apenas para ter as imagens viralizadas na internet.

Proposital ou acidental? Pouco importa, pois existem essas e outras formas de termos nossa privacidade compartilhada. A mais badalada atualmente, vem das artes de agências de espionagem americanas, bisbilhoteiras no atacado. E isso ainda será fartamente debatido, e, provavelmente, outras arapongagens de outros governos serão reveladas, e nós, cada vez mais conectados, cada vez mais expostos.

No mundo de hoje, existem mais de 3 bilhões de câmeras instaladas em dispositivos móveis. Não tenho a contagem de câmeras de monitoramento, mas Londres, há 4 anos atrás, já tinha mais câmeras capturando imagens do que gente vivendo por lá.

Hoje em dia, devemos agradecer os poucos locais e momentos que temos privacidade plena, que não precisa vir acompanhada da solidão do poeta.

Precisamos, nessas horas, tomar o cuidado de desligar todas as câmeras de fotos e videos, os gravadores de som, os smartphones, tablets e notebooks. Será possível?

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