Tecnologia e a Copa 2010
Quem segue a Copa do Mundo FIFA 2010 deve estar, no mínimo, pasmo com os vários erros de arbitragem. escancarados pela transmissão de TV por (quase) todo o mundo, sem censura, e com restrições, nos telões dos estádios.
A FIFA e o Board resistem em usar recursos de tecnologia, seja pela repetição de imagens na TV, seja por dispositivos embutidos na bola para bipar quando ela entra no gol ou sai de campo.
Ontem, Joseph Blatter, o todo poderoso presidente da FIFA reabriu a discussão, dada a repercussão mundial causada pelo gol da Inglaterra não marcado pelo trio de arbitragem e pelo gol da Argentina no México, quando o Carlito Tevez estava em flagrante impedimeto. Se na contagem final os resultados não seriam alterados, com certeza o impacto no ânimo dos jogadores e na ira das torcidas prejudicadas foi grande.
No fundo, inexistem argumentos sólidos para impedir que ao menos em torneios mais relevantes o uso desses recursos de apoio à arbitragem e à transparência de resultados sejam usados.
Não cabem mais os batidos argumentos que dizem ser impossível o uso da tecnologia porque os estádios do Gabão ou das Ilhas Maurício não justificariam, embora em torneios relevantes da Europa talvez fosse o caso.
Mas o fato é que o futebol é hoje um negócio global atraindo mais de um terço da humanidade em uma Copa do Mundo, e gera um PIB próprio maior do que o da maioria esmagadora ds países da Terra inscritos na FIFA (em maior número do que na ONU, diga-se de passagem).
Outro ponto é que a justiça ministrada pelos árbitros em uma partida de futebol tem de ser feita em tempo real, sem possibilidade de recurso.
Como fazer? É óbvio que torneios locais, mesmo em países-potência do futebol, não podem se dar ao luxo de usar esses recursos tecnológicos, pois o custo não se justifica.
Mas é óbvio que os torneios maiores podem tê-los, e testar as novidades tecnológicas sendo early adopters, para que a sua eficácia comprovada gere interesse e demanda e daí a escala de produção possa colocar os preços no chão.
Uma Copa do Mundo movimenta dezenas de bilhões de dolares. Usar uma pequena fração desse montante no investimento em tecnologia só faz bem aos bilhões de fãs do futebol.
Como fazer o payback do investimento? Simples: A FIFA, como puxadora da tecnologia, receberia royalties pela propagação dessas inovações dentro e fora do futebol.
É só querer, Herr Blatter! Sucesso em suas negociações nas reauniões do Board em Londres, agora em julho.
Usando Tecnologia Para Apagar Lampiões
>Usando Tecnologia Para Apagar Lampiões
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Redes Sociais no Trabalho: Proibir, Liberar ou Controlar?
Quantas empresas reclamam do uso descontrolado, da parte de funcionários -e mesmo de dirigentes- das redes sociais e das mensagens instantâneas? Se liberar geral, a produtividade cai, a atenção ao trabalho some; se proibir, gera insatisfação e, em alguns casos, também há perdas de produtividade, dependendo da atividade exercida.
Não é algo de resposta simples, única.
De um lado, o uso indiscriminado pode trazer sim, sérios problemas, não só de produtividade como também de segurança, ao abrir o ambiente de TI da empresa a acesso de sites nem sempre confiáveis, a downloads maliciosos e de atenção dos colaboradores com seu trabalho. Existem casos reportados de acidentes de trabalho oriundos da distração de colaboradores acessando redes sociais.
De outro lado, vedar o acesso pode tirar agilidade da empresa ou de um grupo de colaboradores que precisam de insumos ali contidos para melhor desempenho. Isso ocorre quando a empresa trabalha em múltiplos ambientes físicos que requerem contatos frequentes entre esses locais, sem excluir desse universo os fornecedores, parceiros e, cada vez mais no radar, os próprios clientes.
Estudos de mercado dizem que hoje, 7% dos celulares no mercado possuem recursos de acesso à internet, seja pela própria rede da operadora, seja direto na internet através de um ponto de acesso WiFi. Ora, isso já representa mais de 11 milhões de aparelhos, um universo nada desprezível, tanto em termos de público interno quanto externo. Vale dizer que, com toda a certeza, o “proibir geral” cria uma casta de privilegiados que podem acessar a internet independentemente das regras da empresa, e no horário de trabalho, enquanto a maioria silenciosa -e potencialmente revoltada- vai ficar frustrada.
Mais: em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil, esse percentual deve subir para 40%, de uma base de 180 milhões de aparelhos, ou mais de 70 milhões de celulares. Aí, tentar vedar o acesso só pela rede corporativa vai ser tarefa muito próxima do impossível, dadas as portas alternativas disponíveis.
Com esse crescimento, as empresas precisam estar atentas também a novas oportunidades de comunicação com seu público alvo. Afinal, é pouico provável que alguma empresa não tenha, nesses 70 milhões de consumidores, uma parte de seu mercado potencial.
Outro problema: para cada barreira de bloqueio tecnológico, existem várias ferramentas livres na web que podem burlá-la, ou, no mínimo, tornar cada vez mais inglória a tarefa do administrador da rede corporativa.
Eu entendo que a solução está num meio termo, que passa por liberar acesso, de forma controlada, em períodos como o horário de almoço, ou no início e no final do expediente. Em casos de empresas que podem ter benefícios para seus produtos ou serviços com o uso de redes socias e ferramentas de mensageria instantânea, um pacto negociado com os colaboradores pode funcionar.
Partir do princípio de que a empresa está de um lado e os colaboradores de outro, nesse caso das redes sociais, é um esférico engano… Dá para conciliar os interesses, e transformar o problema em uma baita solução.
Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos a mesma coisa que proibir ou liberar acesso dos funcionários ao internet banking. Se proibir, o colaborador vai ter de sair em horário de expediente, ou sacrificar seu almoço, para ir ao banco.
É verdade que as redes sociais trazem muito tráfego para a rede interna, e isso pode prejudicar atividades produtivas.
Mas… hoje em dia muitas empresas já usam ferramentas como o Skype para comunicação interna e com o mercado. Limitar a comunicação pessoal é um problema, e os benefícios de seu uso superam largamente os custos, na grande maioria dos casos.
Como disse no começo desse post, não existe uma solução única. Mas o que não dá para fazer é proibir geral ou liberar geral. O modelo ideal para cada empresa existe, sim, e deve ser continuadamente buscado e evoluido.
Afnal, a tecnologia não para, e um modelo bom hoje pode ser um problema em seis meses.
Antena ligada, gente!
>Redes Sociais no Trabalho: Proibir, Liberar ou Controlar?
>Quantas empresas reclamam do uso descontrolado, da parte de funcionários -e mesmo de dirigentes- das redes sociais e das mensagens instantâneas? Se liberar geral, a produtividade cai, a atenção ao trabalho some; se proibir, gera insatisfação e, em alguns casos, também há perdas de produtividade, dependendo da atividade exercida.
Não é algo de resposta simples, única.
De um lado, o uso indiscriminado pode trazer sim, sérios problemas, não só de produtividade como também de segurança, ao abrir o ambiente de TI da empresa a acesso de sites nem sempre confiáveis, a downloads maliciosos e de atenção dos colaboradores com seu trabalho. Existem casos reportados de acidentes de trabalho oriundos da distração de colaboradores acessando redes sociais.
De outro lado, vedar o acesso pode tirar agilidade da empresa ou de um grupo de colaboradores que precisam de insumos ali contidos para melhor desempenho. Isso ocorre quando a empresa trabalha em múltiplos ambientes físicos que requerem contatos frequentes entre esses locais, sem excluir desse universo os fornecedores, parceiros e, cada vez mais no radar, os próprios clientes.
Estudos de mercado dizem que hoje, 7% dos celulares no mercado possuem recursos de acesso à internet, seja pela própria rede da operadora, seja direto na internet através de um ponto de acesso WiFi. Ora, isso já representa mais de 11 milhões de aparelhos, um universo nada desprezível, tanto em termos de público interno quanto externo. Vale dizer que, com toda a certeza, o “proibir geral” cria uma casta de privilegiados que podem acessar a internet independentemente das regras da empresa, e no horário de trabalho, enquanto a maioria silenciosa -e potencialmente revoltada- vai ficar frustrada.
Mais: em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil, esse percentual deve subir para 40%, de uma base de 180 milhões de aparelhos, ou mais de 70 milhões de celulares. Aí, tentar vedar o acesso só pela rede corporativa vai ser tarefa muito próxima do impossível, dadas as portas alternativas disponíveis.
Com esse crescimento, as empresas precisam estar atentas também a novas oportunidades de comunicação com seu público alvo. Afinal, é pouico provável que alguma empresa não tenha, nesses 70 milhões de consumidores, uma parte de seu mercado potencial.
Outro problema: para cada barreira de bloqueio tecnológico, existem várias ferramentas livres na web que podem burlá-la, ou, no mínimo, tornar cada vez mais inglória a tarefa do administrador da rede corporativa.
Eu entendo que a solução está num meio termo, que passa por liberar acesso, de forma controlada, em períodos como o horário de almoço, ou no início e no final do expediente. Em casos de empresas que podem ter benefícios para seus produtos ou serviços com o uso de redes socias e ferramentas de mensageria instantânea, um pacto negociado com os colaboradores pode funcionar.
Partir do princípio de que a empresa está de um lado e os colaboradores de outro, nesse caso das redes sociais, é um esférico engano… Dá para conciliar os interesses, e transformar o problema em uma baita solução.
Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos a mesma coisa que proibir ou liberar acesso dos funcionários ao internet banking. Se proibir, o colaborador vai ter de sair em horário de expediente, ou sacrificar seu almoço, para ir ao banco.
É verdade que as redes sociais trazem muito tráfego para a rede interna, e isso pode prejudicar atividades produtivas.
Mas… hoje em dia muitas empresas já usam ferramentas como o Skype para comunicação interna e com o mercado. Limitar a comunicação pessoal é um problema, e os benefícios de seu uso superam largamente os custos, na grande maioria dos casos.
Como disse no começo desse post, não existe uma solução única. Mas o que não dá para fazer é proibir geral ou liberar geral. O modelo ideal para cada empresa existe, sim, e deve ser continuadamente buscado e evoluido.
Afnal, a tecnologia não para, e um modelo bom hoje pode ser um problema em seis meses.
Antena ligada, gente!
Voto Impresso: Volta ao Século XX
Está nas mãos do presidente Lula a versão final da chamada “mini-reforma eleitoral”, que de “reforma” não tem nada e só é “mini” porque não aborda os temas principais e, no que muda, na essência, remete ao passado e à falta de transparência.
Desabafo feito, vou comentar as duas vertentes, digamos assim, “tecnológicas” dessa mudança: as regras para a internet e o voto impresso.
As regras para o uso da internet, não terão eficácia e só gerarão polêmicas e demandas judiciais. Poucos candidatos se darão conta do potencial democrático da rede e das vantagens de bem utilizá-la para sensibilizar os eleitores, que depois poderão cobrar dos eleitos.
Mas o que passa desapercebido é a enésima tentativa de criar a impressão do voto confirmado na urna por amostragem de 2%, a parir de 2014, um verdadeiro absurdo.
Essa discussão só interessa a três tipos de pessoas: aos desinformados que fazem alarido por qualquer motivo, aos vendedores de impressoras, tinta e papel e aos derrotados, que, por não terem o voto impresso, podem achar desculpa, ou melhor, culpar a urna eletrônica e questionar a própria democracia.
Os programas das urnas são extremamente seguros. E eles são disponibilizados aos partidos políticos que podem auditá-los antes, para ver da possibilidade de furos ou fraudes. Essa versão debulhada a muitas mãos é então carregada nas 400 e tantas mil urnas que vão a todos os recantos do Brasil e lá se vota.
Fechada a eleição, qualquer dúvida pode ser dirimida simplesmente cotejando o programa da urna com o programa original, auditado e aprovado por todos os interessados.
Se não houve divergência, é claro que não houve erro.
E o voto impresso tem três defeitos insanáveis: (a) o custo é muito maior, (b) a possibilidade de quebra de um dispositivo eletromecânico é enorme e (c) escancara as portas para o voto de cabresto, uma vez que o eleitor pouco instruído pode ser induzido a fotografar seu finalizado e confirmado voto com o celular para comprovar um compromisso com cabos eleitorais a serviço de candidaturas espúrias.
Assim, espero que presidente Lula, que tem até o início do mês para sancionarr a tal lei, vete, no mínimo, essa parte da exigência do voto impresso, pois é um desserviço à democracia e ao bolso de nós, contribuintes.
>Voto Impresso: Volta ao Século XX
>Está nas mãos do presidente Lula a versão final da chamada “mini-reforma eleitoral”, que de “reforma” não tem nada e só é “mini” porque não aborda os temas principais e, no que muda, na essência, remete ao passado e à falta de transparência.
Desabafo feito, vou comentar as duas vertentes, digamos assim, “tecnológicas” dessa mudança: as regras para a internet e o voto impresso.
As regras para o uso da internet, não terão eficácia e só gerarão polêmicas e demandas judiciais. Poucos candidatos se darão conta do potencial democrático da rede e das vantagens de bem utilizá-la para sensibilizar os eleitores, que depois poderão cobrar dos eleitos.
Mas o que passa desapercebido é a enésima tentativa de criar a impressão do voto confirmado na urna por amostragem de 2%, a parir de 2014, um verdadeiro absurdo.
Essa discussão só interessa a três tipos de pessoas: aos desinformados que fazem alarido por qualquer motivo, aos vendedores de impressoras, tinta e papel e aos derrotados, que, por não terem o voto impresso, podem achar desculpa, ou melhor, culpar a urna eletrônica e questionar a própria democracia.
Os programas das urnas são extremamente seguros. E eles são disponibilizados aos partidos políticos que podem auditá-los antes, para ver da possibilidade de furos ou fraudes. Essa versão debulhada a muitas mãos é então carregada nas 400 e tantas mil urnas que vão a todos os recantos do Brasil e lá se vota.
Fechada a eleição, qualquer dúvida pode ser dirimida simplesmente cotejando o programa da urna com o programa original, auditado e aprovado por todos os interessados.
Se não houve divergência, é claro que não houve erro.
E o voto impresso tem três defeitos insanáveis: (a) o custo é muito maior, (b) a possibilidade de quebra de um dispositivo eletromecânico é enorme e (c) escancara as portas para o voto de cabresto, uma vez que o eleitor pouco instruído pode ser induzido a fotografar seu finalizado e confirmado voto com o celular para comprovar um compromisso com cabos eleitorais a serviço de candidaturas espúrias.
Assim, espero que presidente Lula, que tem até o início do mês para sancionarr a tal lei, vete, no mínimo, essa parte da exigência do voto impresso, pois é um desserviço à democracia e ao bolso de nós, contribuintes.
"O Sistema Caiu"… E ele se machucou?
Você já precisou de um serviço que dependa de computadores, como pagar uma conta na fila do caixa de supermercado, chamar um serviço de atendimento a cliente de uma loja ou tentar fazer o check-in de um vôo aqui no Brasil? Talvez você já tenha ouvido uma desculpa do tipo “sinto muito, o sistema caiu”…
Pois saiba que, nesses casos, no mínimo 80% dessas frases são ditas para que o fornecedor fuja da raia. Embora sistemas, computadores e linhas de comunicação estejam sujeitos a falhas, é notória sua ausência quando é o lado de lá que precisa de você, como aquelas incômodas chamadas de call centers num sábado à noite.
Então, quando vierem com um “sinto muito, o sistema caiu”, pergunte se ele se machucou e busque uma instância superior para ser atendido. Peça para falar com o supervisor ou o gerente, esperneie. Assim, e só assim você contribui para que esses serviços melhorem.
Minha última experiência foi em um supermercado, quando tentava pagar a conta com um cartão de crédito e a moça do caixa disse que eu precisava passar o cartão em um balcão em frente, onde uns 20 clientes esperavam na fila. Naturalmente, todos estavam desconfortáveis, irados, e os dois atendentes que passavam os cartões estavam visivelmente encabulados e estressados, mas gentís, até onde era possível.
Eu fiz a pergunta clássica, sobre os machucados do sistema, alguns clientes riram e outros ficaram mais irados; pedi para falar com o gerente, que estava placidamente em pé, a uns 20 metros daquele balcão, só assistindo, junto com um fulano com uma pança pronunciada, comendo um suculento caqui, que, por ação da gravidade. pingava um pouco de seu sabor na camisa e na barriga do tal fulano.
Falei com o gerente, que ficou mudo, pois o cara do caqui era um diretor do supermercado, que ficou indignado e disse que ia chamar o “gerente do CPD” para me provar que o sistema havia efeitivamente caido. Eu declinei, gentilmente dizendo a ele que agradecia, mas ia buscar outra fonte.
E foi o que fiz. Liguei para o Procon, não sem antes verificar com o fornecedor do link de comunicações e com a operadora de cartão, e ambas me informaram que os seus serviços estavam ativos.
Independente da ação do Procon, nesse caso eu tomei uma decisão: não vou mais a supermercado onde o “sistema cai” e o diretor come caqui na porta da saída enquanto seus clientes ficam de fila em fila com desculpas furadas.
Sistemas caem, efetivamente, mas eles não podem falar para se defender. É a tecnologia servindo de desculpa para um mau serviço.
E você, tem visto muitos sistemas machucados por queda, ultimamente?
Considerações Sobre a Política Nacional de Informática – Uma Visão de 1984
CONSIDERAÇÕES SOBRE A POLÍTICA NACIONAL DE INFORMÁTICA
APRESENTAÇÃO À COMISSÃO MISTA DO CONGRESSO PRESIDIDA PELO SENADOR VIRGILIO TAVORA
Eduardo Guy de Manuel
Presidente da ASSESPRO – NACIONAL
Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Informática
Brasília, 11 de setembro de 1984.
1 – A INFORMÁTICA HOJE E NO FUTURO
De repente, a sociedade brasileira acordou para a informática. Discute-se sobre seus impactos, seus benefícios, sua capacidade de gerar ou extinguir empregos, e mesmo sob os aspectos relativos à área social e sua importância estratégica como ferramenta de soberania nacional.
A grande quantidade de projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional, exibindo uma ampla gama de opiniões e conceitos, e a ênfase com que o assunto vem sendo tratado nestas casas legislativas, demonstra a preocupação de nossos Congressistas em corretamente definir um modelo duradouro para a informática, no Brasil.
Para melhor embasar nossa exposição, vamos colocar em discussão alguns parâmetros, que, ao nosso ver, são importantes para a definição do modelo de informática mais adequado ao Brasil.
A “invasão” dos computadores, tal como a vemos hoje, é apenas a ponta do iceberg dos campos de aplicação da informática em 1984, estima-se que os dispêndios mundiais no setor alcancem a 250 bilhões de dólares. Um valor expressivo, sem dúvida. Mas, ao levarmos em conta os números previstos para a virada do século, que montam a 5 TRILHÕES de dólares, ou 20 vezes mais, em apenas 15 anos, somos obrigados a refletir um pouco mais.
O fator 20 de crescimento, traz em seu bojo três interpretações nem sempre muito claras:
– O preço unitário dos equipamentos e serviços de informática vem decrescendo assustadoramente, a níveis mundiais. Logo, a multiplicação dos usuários de informática se dará a um fator próximo de 200 VEZES, em apenas 15 anos.
– A extensão das suas aplicações é hoje ainda mal avaliada, por conseqüência. Não podemos imaginar este crescimento baseado apenas no aumento de usuários para as aplicações que conhecemos hoje. É razoável supor que seu uso se espalhe intensamente para as áreas que vão da automação industrial ao ensino de todos os níveis; do diagnóstico (e talvez prognóstico) na medicina à meteorologia, passando pelas ciências exatas, sociais, humanas. Enfim, espera-se que a informática seja colocada à disposição de todos os ramos de conhecimento e atividade humanos, para SERVIR ADEQUADAMENTE À SOCIEDADE;
– A disseminação da informática, como recurso-meio das atividades humanas, vai requerer, além de tecnologia evoluída em seu USO, como também de recursos muito grandes para pesquisa, visando torná-la útil em todos os campos. E capacidade de produção de uma infinidade de insumos, componentes e produtos acabados em uma escala industrial jamais imaginada há alguns anos atrás.
Em cima disso tudo, cabe uma pergunta: Será que uma nação, individualmente, pode pretender abraçar todas as disciplinas do conhecimento da informática, e colocá-las à disposição de seus cidadãos, em condições vantajosas, preservando ainda o domínio dos rumos estratégicos desta nova área do conhecimento humano?
Como decorrência, quais são os parâmetros mínimos que uma nação deve pretender dominar, de acordo com a soberana vontade de seus cidadãos, para que não fique ao reboque das nações e grupos econômicos mais poderosos, e assim entrar naquela que talvez seja a mais odiosa forma de dependência: a dependência da informação, do conhecimento e da capacidade de um povo definir seus próprios destinos.
A informática, sem dúvida, pode colocar nas mãos de governos e mesmo grandes empresas, poderes nunca antes imaginados. O perigo do Big Brother, de George Orwell, previsto em seu livro, por coincidência chamado “1984”, é muito maior do que pensamos.
Pobre daquele país que concentrar muito poder de decisão sobre a informática nas mãos de poucos, em especial se este poder não for rigidamente controlado pela vontade da sociedade. A concentração destes poderes, se em mãos de pessoas bem intencionadas e capazes, pode trazer benefícios incríveis. Mas e se as pessoas, suas índoles e suas ideologias não forem adequadas?
Basta fazer um pequeno exercício de fantasia histórica, e imaginarmos o que seria do mundo se Hitler e seus asseclas tivessem os recursos da informática de hoje em suas mãos. Sem falar daqueles que estarão no mercado nos próximos anos…
2- PARAMETROS PARA UMA LEGISLAÇÃO DE INFORMÁTICA
O Brasil, objeto de nossas permanentes atenções e preocupações, precisa, naturalmente, de uma legislação sobre a informática. Nosso primeiro modelo não será, certamente, algo pronto, acabado e perfeito.
A legislação básica deve permitir aperfeiçoamentos permanentes, para acompanhar a dinâmica do ramo, onde uma nova geração de computadores surge a cada 18 a 24 MESES, e onde os computadores com inteligência artificial já fazem a sua estréia em laboratórios de pesquisa.
Devemos levar em conta nossos interesses estratégicos, visando preservar a soberania do Brasil, como nação independente, política, econômica e “informacionalmente”.
Os recursos tecnológicos e financeiros devem ser corretamente avaliados, para não transformarmos nossas aspirações de independência tecnológica em atrasos sociais que aumentem exponencialmente a distância que hoje nos separa das nações mais prosperas.
Não devemos, com certeza, deixar que os poderes de decisão sobre os rumos da informática nacional estejam concentrados em pessoas ou órgãos, cujas atividades não possam ser rigidamente controladas, fiscalizadas e cobradas, dada a importância estratégica da sociedade.
Nossos recursos são parcos; mesmo assim, já dispomos no país de um considerável acervo tecnológico. Não devemos, não podemos desperdiçá-los.
Os diversos setores da informática, representados por entidades de classe, cuja importância no cenário nacional cresce, dia a dia, devem estar permanentemente representados nos organismos formuladores, executores e controladores da Política Nacional de Informática, junto com representantes de governo e de consumidores, ou usuários.
A Política Nacional de Informática deve levar em conta os princípios básicos da Democracia e da Livre Iniciativa, esta última como única forma adequada de manter a indústria competitiva, gerando sempre melhores produtos aos seus usuários.
Deve, sobretudo, contemplar com especial ênfase e carinho o setor de serviços, que será o mais significativo da informática, nos próximos anos, e onde o Brasil já demonstra especial capacitação, ao ponto de ser um incipiente mas promissor exportador de programas e sistemas de computação, para países como os Estados Unidos e a Alemanha Federal.
Os usuários, atuais e futuros, devem merecer a maior das atenções, não só porque pagam as contas, mas porque precisam de recursos informatizados potentes e eficazes, de modo a gerar produtos e serviços cada vez mais eficazes e competitivos, pois só deste modo o Brasil pode pretender ingressar de vez no rol das nações prósperas e desenvolvidas.
Mecanismos de proteção à empresa nacional de informática são indispensáveis, para criar condições de termos a médio prazo, a dura concorrência dos mercados externos, e prover o mercado interno com ferramentas eficiêntes.
A proteção deve, no entanto, ser transitória, de preferencia declinante no tempo, para não gerar acomodações e ineficiência, que, por sua vez, acarretariam em progressivo isolamento para o país, preços sempre mais altos ao usuário final e perda de competitividade em seus produtos.
Não podemos ignorar a reserva de mercado, que já perdura no Brasil há dez anos, para a fabricação de computadores e seus periféricos. Negá-la agora, ou discutir sua viabilidade, seria por a perder todo um esforço que levou à criação de centenas de fabricantes nacionais, e a perto de mil empresas de software e serviços, a maioria das quais dependem dos fabricantes nacionais, para seu mercado.
São dezenas de milhares de empregos diretos criados, que devem ser preservados e mesmo estimulados à multiplicação, para acompanhar o crescimento da informática.
Mas a tecnologia, os recursos financeiros e, principalmente, os mercados estrangeiros, não podem, não devem ser postos de lado. Eles são vitais, para uma informática nacional forte e definitiva, no cenário mundial.
3 – CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROJETO DE LEI DO GOVERNO
Inegavelmente, a proposição do governo é ordenada, aborda o problema da indústria de hardware e microeletrônica de forma a retratar suas preocupações quanto à viabilização da indústria nacional.
O problema do software, talvez mais relevante e estratégico, é tratado tangencialmente, na medida em que se trabalha febrilmente na montagem de um projeto específico para o setor, e que, esperamos, será trazido à apreciação do Congresso Nacional o mais breve possível. Neste projeto, a ASSESPRO vem procurando fornecer os melhores subsídios, bem como gostaria de debate-lo intensamente com os Congressistas, bem como vê-lo aprovado no menor prazo possível, dada sua relevância.
Voltando ao projeto em pauta, temos algumas preocupações, que se materializam pela análise dos pontos que já abordamos, e que passamos a sumarizar abaixo:
A Comissão Nacional de Informática deve ser democratizada. A participação das entidades de classe do setor deve ser, no mínimo, paritária, em relação à representação de órgãos governamentais.
A indicação dos representantes à CNI deveria originar-se da vontade das entidades representadas, talvez com referendo do Congresso Nacional. Desta forma, evitaríamos, para sempre a manipulação de sua constituição, visando a atender interesses específicos de grupos, e também uma indevida concentração de poder em poucas mãos. Se hoje a concentração de poderes na SEI traz resultados, na média, favoráveis, deve-se ao fato circunstancial de termos pessoas certas nas posições chaves. Mas a formulação de uma Política Nacional de Informática, não pode pressupor que a situação atual vá permanecer.
O prazo previsto para a reserva é mais do que razoável. Oito anos, mais os dez passados, significam o equivalente a mais de um século, para indústrias tradicionais. Não podemos fechar-nos por um período maior, sob pena de sermos riscados de vez, do quadro das nações aspirantes a entrar em campo no time principal.
Todo o esforço do Estado, inclusive no que toca à pesquisa básica, deve contar, obrigatoriamente, com a colaboração da empresa privada nacional. Esta deve sempre ser fortalecida, para que se torne permanentemente competitiva, e também para que o modelo de informática seja condizente com o sistema político do Brasil.
Para que não caiamos em mais uma letra morta, a PNI deveria dar ênfase, ou mesmo, quem sabe, restringir-se àqueles tópicos que possam ser realmente cumpridos, na prática. Uma excessiva abrangencia pode limitar o desenvolvimento de determinados segmentos industriais, vitais para o País, forçando uma revisão da PNI, com os conseqüentes desgastes, para outras áreas. Em outras palavras, vamos legislar sobre um universo conhecido e plenamente ao alcance de nosso controle.
Como dissemos anteriormente, a legislação deve ser dinâmica para atender às crescentes inovações que precisam ser reguladas. Assim, é mais fácil ir, ao longo do tempo, incorporando novos requisitos, do que pretender legislar sobre TUDO, quando na prática, não poderemos controlar tudo.
A lei deve ser muito rigorosa, quanto à verificação e cobrança de programas de nacionalização e absorção de tecnologia em especial para empresas que se beneficiarem de incentivos fiscais, proteções aduaneiras ou verbas governamentais para pesquisa. Não se admite, com o s recursos de que dispomos, sejam premiados ou protegidos os empreendimentos que visam o lucro fácil, em detrimento da genuína fixação de tecnologia no país.
A oportunidade é impar, para fortalecermos nossas Universidades e centros de pesquisa, engajando-os neste esforço, fazendo com que mecanismos de incentivos às empresas passem, sempre que possível, por uma cooperação com esses nossos centros de cérebros, hoje tão marginalizados do nosso processo de desenvolvimento.
Uma palavra sobre o cidadão. É muito importante conceituar claramente, dentro da lei, os direitos do cidadão em conhecer as informações armazenadas sobre ele, nas bases de dados públicas. Ele deve, ainda, ter o inalienável direito de exigir alterações nesses dados, sempre que se revelarem incorretos, ou imprecisos.
Resguardar a privacidade do cidadão é o complemento indispensável. Devemos garantir a ele que determinadas informações sobre sua pessoa não poderão ser armazenadas ou utilizadas, visando proteger sua privacidade e individualidade.
É igualmente importante, que a PNI não esvazie ou invada espaços bem preenchidos por órgãos públicos já existentes, em especial os Ministérios da Indústria e Comércio e o das Comunicações. Estaremos desta forma, evitando a excessiva centralização de poderes, bem como utilizando-se de estruturas já existentes, com custos obviamente menores.
O problema do papel da empresa estrangeira, no desenvolvimento da informática no Brasil, parece-nos ainda não adequadamente debatido. Sem dúvida, nenhum brasileiro em pleno domínio de sua razão, deixaria de preferir empresas genuinamente nacionais dominando o mercado nacional e internacional.
Resta saber se podemos prescindir quase que totalmente a presença das chamadas multinacionais, ou se devemos evoluir para um aprimoramento de relacionamentos, visando obter um equilíbrio que, ao mesmo tempo atenda aos supremos interesses nacionais, conciliando com suficientes atrativos para que essas empresas se fixem no Brasil, dentro de uma nova ordem de relacionamento ainda não tentada.
A discussão sobre a informática NÃO PODE SER PASSIONAL, muito menos radicalizada. Há que sermos pragmáticos, sem abdicarmos de nossa soberania. Ao tornarmos nossas posições radicalizadas estaremos caminhando para um modelo de PNI passional que talvez atinja alguns objetivos importantes de curto prazo, mas que, no futuro, nos deixe nas mãos um conjunto de brinquedos inúteis, ineficazes e caros. E, o que é pior, obrigando-nos a rever nossa PNI, até agora tão altiva e com vários frutos positivos colhidos, para uma posição de humilhação, dentro de alguns anos.
Em informática, senhores Congressistas, alguns anos significam muitas gerações. E o tempo perdido não pode ser recuperado. Como legítimos representantes do povo brasileiro, conclamamo-os a discutir o projeto de lei sobre informática, com a serenidade que exigem as grandes decisões nacionais, para que a decisão final passe à história como um dos grandes serviços prestados pelo Congresso Nacional a seus representantes, o povo brasileiro.