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Steve Jobs e a visão do iPad em 1983

SteveJobs1983Avaliar uma pessoa que morre no auge da fama é algo que pode conduzir a distorções. O bom é poder ter uma perspectiva do tempo, para entender como ele, ou ela, chegou lá.
O nome é Steve Jobs, o fundador da Apple, morto há dois anos, depois de revolucionar quase todos os conceitos do mundo digital.
O ano é 1983, e o evento foi uma Conferência Internacional de Design, em Aspen, Colorado. Ao final, eles enterraram uma cápsula do tempo com alguns objetos, inclusive um mouse do microcomputador Lisa, da Apple, que custava US$ 10.000 e foi um fracasso.

 Nesse evento, que tinha o mote ‘The Future Is Not What It Used to Be‘, ou ‘O Futuro não é mais o que já foi‘, falou Steve Jobs, então com 28 anos, e lá, ele apresenta uma instigante visão do futuro, antevendo inclusive o iPad, que ele lançaria em 2010.

Aqui vai o link da gravação de Jobs, interessante para ouvir e refletir.

Nós vamos encontrar uma maneira de colocar (um computador) dentro de uma caixa de sapatos e vendê-lo por US $ 2.500, e, finalmente, vamos encontrar uma maneira de colocá-lo em um livro”, disse ele na época.

Durante seu discurso, Jobs também deu sua explicação do que é um computador em três partes, uma visão corrente no início dos anos 80:

O computador é apenas uma máquina simples, mas é um novo tipo de máquina. As engrenagens, os pistões foram substituídos por elétrons. Quantos de vocês já viu um elétron? O problema com os computadores, é que você não pode colocar as mãos sobre as coisas que se movem ao seu redor. Você não pode vê-las, então isso intimida, porque, em um espaço muito pequeno, há milhões de elétrons correndo em volta e não podemos realmente ter uma influência sobre o que acontece.

O computador é uma máquina muito adaptável e podemos mover os elétrons de forma diferente para diferentes lugares. Portanto, se você estava aqui ontem à noite e você ouviu falar sobre como o cérebro humano é muito adaptável – o computador é muito adaptável.

A segunda coisa sobre um computador é que ele é muito novo. Foi inventado há 36 anos, em 1947. O primeiro curso do mundo em ciência da computação oferecido por uma universidade, foi na Universidade da Califórnia em Berkeley – que era um mestrado – em 1968. O que significa que a pessoa mais velha que tem uma licenciatura em ciência da computação tem 39 anos. E os profissionais da Apple têm menos de 30. Portanto, é um campo que está dominado por pessoas bastante jovens.

Terceira coisa sobre computadores: eles são realmente burros. Eles são extremamente simples, mas eles são muito rápidos.

Ele errou sobre o preço dos computadores, mas acertou em cheio sobre suas características. Mas a previsão do computador ficar do tamanho de um livro mostra quem seria Steve Jobs…

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Apple: Casos de fracasso explicam seu sucesso

2010 encerra com a Apple sendo a empresa de tecnologia de maior valor de mercado. Nos últimos anos ela emplacou um sucesso atrás de sucesso, criando novos referenciais em diversos segmentos. Já falaremos deles, todos conhecidos da maioria dos nossos leitores. Mas primeiro, quero lembrar de seus fracassos.

O Lisa, lançado em 1983 como o primeiro computador pessoal com interface gráfica, custava inacreditáveis US$ 10.000, grana que dava para comprar um Cadillac completinho e ainda sobrava um bom troco… Falhou por ser muito caro, fraquinho e com poucos aplicativos. Nem suas versões posteriores mais potentes e menos custosas conseguiram emplacar. Para quem conhece os carros americanos, o Lisa foi o Edsel da Ford.

Em 1996, a Apple lança o Pippin, por US$ 600, para ser um aparelho de videogame em rede. Mas, com menos de 20 títulos e performance fraca, vendeu pouco mais de 40.000 unidades para uma produção total de mais de 100.000. Um encalhe enorme, muita grana de pesquisa e desenvolvimento jogada fora. Alguém aí já teve um Pippin? Para a Apple, um verdadeiro pepino

Hoje em dia, o MacBook é objeto de desejo de quase todo mundo que usa um laptop. Mas nem sempre foi assim. Mesmo com o sucesso do conceito do Macintosh, lançado como computador de mesa em 1984, O Macintosh Portable, lançado em 1989 por US$ 6.500 não emplacou, mais ou menos pelos mesmos motivos da falha do Lisa.

Essa máquina foi o símbolo dos momentos tortusoso pelos quais passou a Apple e que levou Steve Jobs a ser demitido.

O G4 Cube já é da fase nova, após o retorno triunfal de Steve Jobs. Lançado em 2000, com a assinatura do guru de design da Apple, Jonathan Ive (o mesmo do iPhone, do MacBook, do iPod e tantos outros), era um cubo com 20 cm de lado, custava US$ 1.600 (preço razoável para a época) mas falhou por não ser nada mais que um Mac em formato de cubo, sem grandes possibilidades de encaixar expansões e periféricos, prioridades básicas do início do século.

Dá para registrar no mínimo mais uns 10 produtos da Apple que não deram certo, independente de quem estava à frente das decisões da companhia.

Os sucessos da Apple, de outro lado, começam com o Apple II (sim, houve o Apple I, alguém viu?), o primeiro computador pessoal que podia justificar esse nome, o Macintosh, que virou cult entre estudantes e designers, e, mais recentemente, o iPod, o iTunes, o MacBook em suas várias versões, o iMac, o iPhone e o iPad.

O Apple II, o Macintosh de 1984 definiram novos padrões de mercado, inventando novas necessidades para os usuários antes de resolver seus problemas. Mas a concorrência estava mais alerta, e apareceram, respectivamente, o MS-DOS e o Windows da Microsoft para colocar esses dois produtos inovadores em nichos bem específicos.

Já os novos produtos deste milênio mudaram a face da indústria, e passaram a uma posição de dominância de mercado, embora não tenham sido inovadores nos conceitos. Já existiam players digitais e lojas de vendas de música e antes do combo iPod+iTunes; o Macbook entrou para valer em um mercado de notebooks muito concorrido e com produtos muito bem aceitos, como a linha Vaio da Sony; o iMac criou novas estéticas para o desktop, mas não grandes novidades de uso; o iPhone foi, em essência, a inserção de circuitos de telefone celular em um iPod Touch; o iPad fez furor como o produto de mais rápida adoção no mercado na esteira do sucesso do iPod e do iPhone, mas o conceito de tablet já existia há mais de 15 anos. A Apple apenas criou um produto charmoso e usável.

Esse modelo de sucesso, além da inegável competencia do time da Apple, deve permanecer viável por um bom tempo. A analogia que faço com casos de sucesso do passado, como o da Microsoft, é que a Apple agora inova em cima de conceitos já lançados e ainda em busca de uma boa posição no mercado.

De certa forma, a empresa da maçã adota em 2010 a mesma receita já testada pelos concorrentes do final do século XX que tanta dor de cabeça lhe causaram.

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